Periodicidade: Diária - Director: Armando Alves - 08/07/2020.
 
 
MUDAM-SE OS TEMPOS, REPETEM-SE AS VONTADES
MUDAM-SE OS TEMPOS, REPETEM-SE AS VONTADES
13 de Dezembro de 2019

10.000 Kms depois, o epílogo (Por Ana Silva)

O Ano de 2019 não foi um ano fácil para a tauromaquia, depois de um 2018 negro com as perdas de António Manuel Cardoso, “Nené”, e de Francisco Penedo, o falecimento de Joaquim Bastinhas, Emílio de Jesus, Ricardo Chibanga e Duarte Chaparreiro, levaram-nos a crer que a temporada de 2019 estaria amaldiçoada. Mas apesar de todos os acontecimentos desfavoráveis, conseguimos chegar ao fim da temporada.

Este ano assisti a 40 corridas de toiros, sendo que duas delas foram em Espanha, e, o sentimento com que fico ao fim de 10 meses a correr o país de uma ponta à outra, é que as corridas acabam por se tornar mais do mesmo. Em Portugal são raras as oportunidades dadas ao toureio a pé e aos cavaleiros mais jovens, e sem nome. Nada que não seja normal, já todos nos habituámos a isso, mas torna-se cansativo ver sempre os mesmos 9 ou 10 cavaleiros a tourear e ver tanto potencial a ficar fora do panorama taurino.

De todas as corridas a que fui, tenho a destacar a de Santarém a 17 de Março, e a da Chamusca a 6 de Abril. Choveu nos dois dias, mas, Corrida de Toiros molhada é uma Corrida abençoada. Saí de Santarém com vontade de contar a toda a gente o quão grandiosa foi a corrida! Os toureiros superaram-se! Começou João Moura bem, veio António Telles ainda melhor e Francisco Palha melhor ainda. A segunda parte não desiludiu e todos os toureiros estiveram ainda melhor que anteriormente. Certamente que nenhum dos presentes na Celestino Graça naquele dia se vai esquecer da magia que sentiu.  Escolhi destacar a corrida da Chamusca não só por ter sido a primeira vez que vi o grandioso Morante de La Puebla ao vivo, mas também porque os cavaleiros estiveram excelentes nas lides a duo, tanto os Telles como os Salgueiro da Costa. Apesar de destacar esta corrida pelo Morante, talvez fosse com as expectativas demasiado elevadas, mas não foi ele que me fez sair de lá eufórica. “El Cid” esteve triunfal naquela tarde. No ano da sua despedida das arenas, veio provar a Portugal que estava pronto para mais alguns anos.

Além destas duas, assisti a muitas que realmente valeram a pena os quilómetros feitos, mas também assisti a algumas corridas de toiros que me fizeram sair da praça arrependida de lá ter entrado.

Não queria entrar dentro de assuntos políticos, mas acho que cada vez mais se torna pertinente falar deste tema quando nos referimos à festa brava. Sofremos ataques de todos os lados, e o que nos importa é quem tem mais visualizações no Facebook e no Instagram. Não pode ser assim, se estivermos divididos e em guerra entre nós, tornamos a tarefa mais fácil aos leigos que nos provocam diariamente. Este ano o PAN conseguiu meter ainda mais deputados no parlamento, como é que vai ser daqui a 4 anos? Honestamente, receio o fim das corridas nos moldes a que estamos habituados e temo que os meus futuros filhos não possam entrar numa praça até serem maiores de idade. E quem defende os nossos interesses? Porque nós não obrigamos ninguém a ir. Não nos forcem aos vossos gostos de citadinos ignorantes em relação ao mundo rural.

Terminei a temporada com um misto de emoções, e não consigo afirmar se foi um bom ano ou se foi apenas mediano, mas estou sem dúvida mais inclinada para a segunda hipótese. Muita coisa tem de começar a mudar para que aquelas tardes de toiros com os amigos não passem a ser apenas memórias distantes.

Espero que 2020 comece com algumas mudanças na Festa Brava em Portugal! E espero que chegue a Dezembro do próximo ano sem um misto de emoções, mas sim com a certeza de que foi uma boa temporada e que os quase 10.000 km percorridos valeram a pena.

Venha Mourão, que estamos todos fartos de estar em casa!

Ana Silva