Em Portugal, a tourada é muito mais do que um espetáculo: é parte da identidade do Ribatejo, do Alentejo e dos Açores, e está protegida como património cultural em várias autarquias. Ainda assim, enfrenta uma pressão crescente para ser abolida, sobretudo por setores da esquerda urbana que, muitas vezes, pouco conhecem da realidade rural que a sustenta.
O que raramente se diz é que a criação do touro bravo é inseparável da tauromaquia. Esta raça, única no mundo, existe precisamente porque é criada para a arena. Sem esse propósito, os criadores não teriam qualquer incentivo económico para manter animais que necessitam de vastos pastos, cuidados veterinários especializados e anos de crescimento. Especialistas em zootecnia alertam que, sem tourada, o touro bravo acabaria por desaparecer, substituído por gado de carne de ciclo rápido.
Para além disso, a ganadaria garante a preservação de milhares de hectares de montado e dehesa — ecossistemas de alta biodiversidade que dependem dessa atividade para se manterem intactos. O touro bravo vive em liberdade, em condições naturais, durante quatro a seis vezes mais do que um bovino de consumo, e estudos de fisiologia mostram que a sua resposta hormonal o torna mais resistente ao esforço e à dor.
Acabar com a tourada não seria apenas uma decisão cultural: seria abrir caminho à extinção de uma espécie emblemática e ao desaparecimento de paisagens inteiras. Em nome de uma moral única, arriscaríamos não só empobrecer a diversidade cultural de Portugal, mas também eliminar o próprio animal que se pretende “proteger “. A democracia mede-se pela capacidade de conviver com tradições diferentes; impor a uniformidade é, em última análise, um gesto de intolerância que empobrece a nossa herança comum.
Concha Lobo d´Ávila
07/01/2026
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