Periodicidade: Semanal - Director: Armando Alves - 08/10/2026.
 
 
PALHA BLANCO: 125 ANOS DE HISTÓRIA, TRADIÇÃO E EXIGÊNCIA
PALHA BLANCO: 125 ANOS DE HISTÓRIA, TRADIÇÃO E EXIGÊNCIA
08 de Outubro de 2026





Comemoração com a tradicional corrida mista

Palha Blanco: 125 anos de história, tradição e exigência

Miguel Moura confirmou o bom momento da temporada, Tristão Ribeiro Telles destacou-se diante de um bravo Murteira Grave e Daniel Luque deixou momentos de qualidade numa tarde marcada pelas comemorações do aniversário da praça vilafranquense.

A Praça de Toiros Palha Blanco voltou a ser palco de uma das tardes mais emblemáticas da Feira de Outubro. No passado domingo, 4 de outubro, Vila Franca de Xira assinalou os 125 anos da sua histórica praça, num espetáculo que reuniu tradição, exigência e momentos de interesse artístico. Mais de um século depois, a Palha Blanco continua a representar uma forma muito própria de viver e interpretar a tauromaquia, onde o respeito pelo toiro e a exigência das bancadas permanecem marcas incontornáveis.

Para esta corrida comemorativa, apresentou-se um cartel misto, composto pelos cavaleiros Miguel Moura e Tristão Ribeiro Telles e pelo matador espanhol Daniel Luque. Lidaram-se exemplares das ganadarias Murteira Grave, Sommer D’Andrade e Falé Filipe, com as pegas entregues aos Grupos de Forcados Amadores de Montemor e de Vila Franca de Xira.

Miguel Moura confirmou o bom momento que atravessa na presente temporada. Abriu a corrida diante de um Murteira Grave que ofereceu condições para o triunfo e que o cavaleiro soube aproveitar. Depois de receber o adversário em sorte de gaiola, foi encontrando o ritmo adequado, valorizando as investidas e deixando ferros de interesse, com particular destaque para o primeiro curto. A qualidade da brega e a forma como rematou algumas sortes contribuíram para uma atuação positiva.

Na segunda passagem, coube-lhe enfrentar um sobrero de Murteira Grave, após a devolução aos curros do exemplar de Sommer D’Andrade, por dificuldades de locomoção. Perante um toiro que melhorou ao longo da lide, Moura soube adaptar-se e construir uma atuação de crescente interesse, conseguindo cravagens ajustadas e demonstrando capacidade para tirar partido da evolução do adversário. Duas passagens que confirmaram a consistência do seu toureio e a confiança com que se apresenta atualmente nas arenas.

Tristão Ribeiro Telles encontrou maiores dificuldades no primeiro exemplar do seu lote, um imponente Sommer D’Andrade. A tentativa inicial de sorte de gaiola não resultou como desejado e, apesar de o toiro revelar mobilidade, faltou-lhe transmissão para proporcionar uma lide de maior expressão. O cavaleiro procurou encontrar soluções, mas a atuação acabou por ficar abaixo das possibilidades inicialmente anunciadas pelo adversário.

O melhor momento de Tristão surgiu diante de um Murteira Grave de excelente apresentação e boas condições de lide. Depois de uma nova tentativa de sorte gaiola sem o êxito pretendido, conseguiu um ferro de particular mérito, citando de largo e reunindo com verdade. A partir daí, encontrou maior entendimento com o toiro, deixando ferros de qualidade e valorizando as investidas do exemplar da Galeana. A bravura e as condições demonstradas pelo animal justificaram o reconhecimento prestado à ganadera, chamada a dar a volta à praça.

No toureio apeado, Daniel Luque enfrentou dois exemplares de Falé Filipe que proporcionaram situações distintas. O primeiro, de apresentação insuficiente para a exigência da Palha Blanco, suscitou contestação nas bancadas. O espanhol deixou alguns apontamentos de qualidade com o capote, nomeadamente num ajustado quite por chicuelinas. Com a muleta, encontrou resistência pelo pitón direito, descobrindo melhores possibilidades pelo esquerdo. Ainda assim, a faena não ganhou a continuidade necessária para alcançar maior expressão artística.

Diante do segundo exemplar, Luque conseguiu impor mais claramente o seu conhecimento e experiência. Mesmo perante um toiro de entrega irregular e que foi perdendo intensidade, o matador soube encontrar os momentos e os terrenos adequados para desenvolver o seu toureio. Pelo pitón direito desenhou muletazos de bom traço, destacando-se alguns derechazos profundos e templados. Quando o adversário começou a acusar maior desgaste, insistiu na procura de novas investidas, conseguindo momentos de apreciável qualidade. Uma faena construída com inteligência e capacidade técnica, que lhe valeu uma forte ovação do público.

No capítulo das pegas, os Amadores de Montemor abriram a sua participação através de Joel Santos, que enfrentou um sério Murteira Grave. Depois de sofrer um violento derrote na primeira tentativa, regressou à cara do toiro para concretizar à segunda. José Maria Cortes Pena Monteiro assinou uma das melhores pegas da tarde, resolvendo à primeira tentativa, com serenidade na reunião, firmeza na cara do toiro e uma eficaz intervenção das ajudas.

Pelos Amadores de Vila Franca de Xira, Rodrigo Camilo esteve em bom plano, concretizando à primeira tentativa uma pega segura e tecnicamente conseguida. Miguel Faria encerrou a atuação dos forcados perante um exigente Murteira Grave, que lhe colocou dificuldades, acabando por consumar a pega à terceira tentativa.

No capítulo ganadeiro, destaque para a seriedade e apresentação dos exemplares destinados ao toureio a cavalo, sobretudo os de Murteira Grave e Sommer D’Andrade, embora de comportamento desigual. A ganadaria Murteira Grave deixou as melhores notas da tarde, particularmente através do exemplar lidado por Tristão Ribeiro Telles. Já os toiros de Falé Filipe evidenciaram diferenças na apresentação e no comportamento, limitando as possibilidades de maior triunfo no toureio apeado.

Em suma, ficou uma tarde com momentos de interesse artístico, mas também com algumas oportunidades por aproveitar, numa corrida em que a exigência da Palha Blanco voltou a fazer-se sentir. Mais do que os resultados individuais, celebrou-se a história de uma praça que, ao longo de 125 anos, soube preservar a sua identidade e manter o toiro como elemento central do espetáculo. Uma Palha Blanco fiel às suas raízes, onde a afición continua a reconhecer o mérito e a exigir verdade, seriedade e entrega, perpetuando o prestígio de Vila Franca de Xira como uma das grandes referências da Festa Brava portuguesa.

CRÓNICA: Lucas Fagundes

FOTOS: Armando Alves