Chegamos a mais um final de temporada no nosso país, cheio de triunfos relevantes e com alguns fracassos igualmente importantes para a festa que nos une e nos tanto apaixona e, este ano em especial que infelizmente nos relembrou da vulnerabilidade humana diante a vida e a morte.
Todas as épocas, enquanto aficionado deparo-me com um sonho idílico e transcendente, essencialmente sobre a saúde da nossa festa. Preocupo-me sobretudo com a sua continuidade num futuro corrompido pela cultura que acredita ser dona da verdade, que impõe os seus valores como universais e incontestáveis e com a globalização extrema que visa a perda de identidade cultural de toda a orbe rural. Estamos por isso, perante um dos maiores ataques ao direito de nos exprimir enquanto seres humanos que, cada vez mais, desvaloriza o mundo rural e seus costumes responsáveis por garantir a nossa sobrevivência. Ainda assim, com a maior das nobrezas, continuamos a alimentar um mundo que não nos respeita, porque é apenas isso que lhes pedimos, um pouco de respeito e alguma abertura para uma pequena perceção da nossa alma tão grande quanto o nosso amor pela ruralidade.
Acredito que mais um relatório estatístico não acrescentará nada para além de números numa página, mas que uma reflexão critica é mais importante e mais urgente nos dias que correm. Sendo a verdade um dos maiores pilares da tauromaquia, temos de reaprender a nos reger por ela. Assim sendo, temos de saber admitir que vivemos há algum tempo à base da chamada “afición momentânea” em que poucas são as praças e feiras em que se observa um ambiente de união e verdadeiramente taurino. Saber admitir que, à exceção de pequenos momentos fugazes, o território português é cada vez menos taurino e que temos cada vez mais praças vazias.
A verdade é que, muitas vezes por sentirmos falta de apoio institucional, tornamo-nos intolerantes e exclusivistas e podemos até gerar algum desapreço por aqueles que desconhecem a festa. É a essas pessoas que devemos acolher para dar a conhecer o sentido cultural da festa e mostrar o caminho que passa desde a mais alta figura do toureio até ao mais simples aficionado. De tal forma, há que mudar a nossa contribuição na festa e termos um papel ativo e desobstruído à entrada de novos aficionados na festa taurina.
Só assim poderemos entrar em defesa da nossa cultura, impossibilitando que esta se torne tirana com ideais em que o futuro deixa de ter possibilidades e passa a ter um pensamento único e imposto. É imprescindível acordar deste sonho antes que se torne um pesadelo.
Só com esta união poderemos levar adiante o nosso sonho.
Reflexão escrita por Lucas Fagundes
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