Periodicidade: Semanal - Director: Armando Alves - 16/04/2026.
 
 
À CONVERSA COM "UNITOIRO"
À CONVERSA COM "UNITOIRO"
30 de Janeiro de 2026

Uma conversa fora do óbvio

FT. Se a UniToiro fosse uma pessoa, como a descreveriam em três palavras... e porquê essas e não outras?

U: Se a UniToiro fosse uma pessoa seria certamente apaixonada, transparente e vanguardista. A paixão será o ponto mais fácil de explicar, porque na verdade é a paixão que move esta associação, que nos move todos os dias e nos ajuda a sonhar novas formas de difundir a tauromaquia junto dos jovens. A transparência foi ponto fulcral para a formação deste projeto, prometemos a nós próprios «despir» a tauromaquia, apaixonar as pessoas pela pureza da nossa arte. E acreditamos que esta é uma visão vanguardista, pois por vezes achamos que a difusão da tauromaquia nos últimos tempos foi «tímida» e «complexada». Por vezes temos de acreditar mais na arte da tauromaquia, porque é real, é uma expressão artística, e como todas as expressões artísticas não pode ser reprimida.

FT. Qual foi o momento em que perceberam: “ok, isto já não é só um grupo de amigos, é mesmo um projeto”?

U: Na verdade, é acima de tudo um grupo de amigos, que partilham os mesmos ideais, a mesma ética, a mesma vontade e que acha que pode fazer mais pela festa dos toiros. No entanto quando nos apercebemos que era algo «sério», foi provavelmente no rescaldo do primeiro colóquio «Toiro: o Rei da Festa», mais do que sério, foi quando entendemos a importância daquilo que estávamos a fazer.

IDENTIDADE E GERAÇÃO

FT. O que é que a UniToiro faz de diferente das associações taurinas mais tradicionais?

U: Na verdade não buscamos uma comparação com as demais associações taurinas, focamo-nos em seguir a nossa linha de pensamento e desempenhar o nosso trabalho da melhor forma possível. Temos, contudo, o foco na divulgação da tauromaquia entre os jovens.

FT. Ser jovem e aficionado em 2026 ainda obriga a explicar ou justificar gostos?

U: Justificar? Sem dúvida que não. Temos de perder esse estigma, a tauromaquia é tutelada pelo Ministério da Cultura, a tauromaquia é um direito de todos os cidadãos. Explicar? É esse um ponto que muito desejamos trabalhar, e afirmamos convictamente que a melhor forma de o fazermos é dar conhecimento aos aficionados para que tenham cada vez mais argumentos para explicar esta paixão, e esse pode ser o nosso papel principal.

FT. Acham que a tauromaquia precisa mais de ser defendida... ou melhor explicada?

U: Vai ao encontro da outra questão, a tauromaquia tem, e está a ser defendida, mas a defesa é algo que ultrapassa os «comuns mortais», a defesa é feita politicamente, tanto em Portugal, como com o apoio das entidades Espanholas e Francesas na União Europeia, nós aficionados somos apenas um válido argumento nessa defesa, o que está ao nosso alcance na defesa é instruirmo-nos, encher as praças e darmos a cara pelos nossos gostos. Explicada, obviamente que tem, nesse ponto todos os aficionados e agentes da festa têm um papel fundamental, o nosso esforço vai absolutamente nesse mesmo sentido.

FT. Se tivessem de explicar a festa brava a alguém que nunca viu uma corrida, sem usar a palavra “tradição”, o que diriam?

U: Temos a felicidade de já termos experiência nessa área, aconteceu no nosso primeiro colóquio. Diríamos exatamente o que dissemos a uma pessoa que não conhecia o meio e tinha uma opinião controversa em relação à tauromaquia. Convidámo-la a assistir a uma noite onde se falou abertamente sobre o Toiro de Lide, para que experimentasse conhecer a tauromaquia de “dentro para fora”. No fim desse mesmo colóquio confessou-nos que realmente é necessário a informação sobre a tauromaquia chegar a mais gente. Para nosso espanto e alegria no segundo colóquio que promovemos essa pessoa voltou. Achamos que é uma bonita forma de se compreender e desmistificar a festa.

FT. Qual é o maior mito sobre os jovens taurinos que gostavam mesmo de desconstruir?

U: Que a tauromaquia é um espetáculo de elites. A tauromaquia é de todos, é de todos aqueles que têm sensibilidade suficiente para se arrepiar com a investida de um toiro, para admirar a arte do toureio e a coragem do forcado.

FT. O que é mais difícil: trazer novos jovens para a festa ou manter os que já lá estão?

U: Pensamos que o mais difícil é criar bons aficionados, interessados em conhecer a festa no seu todo.

FT. Há alguma ideia da UniToiro que, à partida, parecia “maluca” ..., mas acabou por resultar?

R: Provavelmente todas as que já realizámos, e as que aí vêm… Quem imaginaria que no coração do Alentejo, em Évora, oito “miúdos” conseguissem organizar e juntar uma centena de pessoas (maioritariamente jovens), num clube, a meio da semana, sentados a ouvir e a aprender sobre toiros com grandes figuras da nossa festa?

FT. Qual foi o maior desafio que enfrentaram até agora e que quase não se vê nas redes sociais?

U: Sem dúvida nenhuma que o maior desafio que enfrentámos até então foi a logística, pois o esforço para a montagem e organização de cada evento é muito grande, não esquecendo que todos somos estudantes. Acrescentando a isso temos a parte económica, o investimento inicial foi totalmente nosso, porque queremos realmente fazer algo com qualidade, e ainda não conseguimos qualquer tipo de patrocínio, o nosso patrocinador até agora é o público.

FT. O que aprenderam sobre trabalho em equipa que nunca aprenderiam fora deste contexto?

U: Aprendemos que se torna fácil sonhar em conjunto e que não há impossíveis, quando o objetivo é algo que vivemos tão intensamente como a Festa Brava. Costumamos dizer em tom de brincadeira: “Não sabemos brincar!”.

FT. Daqui a 10 anos, o que gostavam que alguém dissesse: “a UniToiro foi importante porque...”

U: Reformulamos essa questão, queremos muito que digam: “a UniToiro é importante”. Queremos muito olhar para esta associação daqui a 10 anos, com continuidade, com gente nova, inovadora e que tenha a mesma vontade e afición que nós.

FT. Se tivessem de escolher uma palavra para definir o futuro da tauromaquia em Portugal, qual seria?

U: Promissor, o melhor ainda está para vir.

FT. O que ainda falta mudar para que os jovens sintam que também têm voz neste meio?

R: Uma relação de simbiose entre os mais velhos e os mais novos. Continuidade e longevidade, os jovens serem cada vez mais ativos.

FT. Pertencer ao projeto UniToiro é/significa?

U: Significa interesse por representar a festa, interesse por adquirir conhecimento, interesse por lutar pela Tauromaquia.

Ana Filipa Canhão

30 janeiro 2026